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JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS, Brazil
Esperamos com este Blog dividir um pouco das inúmeras histórias que acumulamos na nossa profissão. São relatos engraçados, tristes, surpreendentes...

domingo, 18 de novembro de 2007

Micos nossos de cada dia

Por Michele Pacheco

A maior preocupação de um repórter cinematográfico é com a imagem. Conseguir os melhores ângulos, a melhor luz... E o Robson leva isso a sério. Até demais! De olho na imagem, ele não pensa duas vezes em me colocar em situações, digamos, delicadas. Canteiro central de avenidas? Já conheço quase todos em Juiz de Fora. Bancos de praça? Posso descrever aqueles que estão em melhores condições em várias cidades da região.

Um dos meus primeiros micos profissionais foi numa reportagem sobre o Festival de Música Antiga em Juiz de Fora. Os organizadores estavam montando um tablado em frente ao Cine Teatro Central. Para a passagem, ele pediu que eu ficasse de costas para o teatro no meio do calçadão mais movimentado da cidade. O povo passando e meu querido colega gritando: mais para a direita...volta um pouquinho...para a direita de novo...assim não vai dar, vá para trás dois passos...um para frente... E eu lá, naquela dança maluca que só cinegrafista entende. As pessoas paravam para olhar, para rir... e eu naquele vai para lá e vem para cá. Por fim, ele chegou à conclusão de que o ângulo não estava legal.

Para completar o meu mico, o Robson saiu arrastando uma escadinha de madeira até o meio do calçadão. Pensei com meus botões que a criatura não seria capaz de chegar a tanto. Foi quando ouvi o grito todo animado: “suba aí que agora vai dar certo”. Para sorte dele, eu não xingo. Lá do alto, com vista privilegiada de todos que riam da minha cara, fiz a passagem e desci correndo, antes que ele tivesse mais alguma idéia brilhante.

Hoje, já nem perco tempo pensando no mico que vou pagar. Subo rápido onde ele manda e gravo. Ele já me colocou até no telhado da Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João Del Rei. Fazíamos uma matéria sobre sinos e eu queria fazer a passagem num lugar alto que desse para ver os meninos tocando os sinos. Quando ele ficou todo animado com a idéia, eu já coloquei o pé atrás. Tanta animação não era um bom sinal.

Moral da história, depois de subir vários degraus de uma escada estreita até uma das torres, ele gentilmente sugeriu que eu fosse até a escadinha de metal entre uma torre e outra e ficasse em pé nela. Quem dá idéia atravessada, tem que ficar quieto. Quem mandou eu abrir a boca sobre a passagem?!

Pulei a janela da torre e fui subindo agachada pela
escada, que é estreita. No meio do telhado, tem uma placa de metal que é o único ponto menos inclinado. Eu estava pelejando para me equilibrar de salto, no alto do telhado, com um vento forte, sem olhar para baixo quando veio o conhecido grito de incentivo “anda, fica logo em pé que a minha imagem de fundo vai acabar”. Fiz a passagem, tentando não balançar muito com o vento, nem perder o equilíbrio. Confesso que ficou muito bom o resultado, mas, que eu tive vontade de torcer o pescoço dele, ah, isso eu tive!

Mas, vontade de esganá-lo não é novidade. Lembro de quando resolvemos fazer uma série de reportagens especiais para o aniversário de Juiz de Fora, em 2003. Produzimos, gravamos e editamos o material. Levamos três meses pesquisando e capturando as imagens do jeito que queríamos.
Numa das reportagens sobre o rio Paraibuna, vimos um banco de areia se formando no meio do rio e decidimos fazer uma passagem lá. Depois de três semanas vigiando o banco, fomos gravar. Tripé, bota de borracha e todos os cabos de microfone que o Robson achou na TV. Coloquei o blazer, passei a ponta do fio pelas costas, prendi na cintura, passei por dentro da calça e arrumei com cuidado para fora da galocha. Estava me sentindo um Indiana Jones de saia.

O Robson pegou o tripé e foi para um canto da margem. Eu, toda amarrada no cabo e com o microfone na mão fui para o rio. De longe parecia tão fácil! A distância entre a margem e o banco era maior do que eu pensava. Olhei em volta e o número de curiosos estava aumentando. Já tinha uns engraçadinhos gritando “pula, pula, pula”. Fazer o quê?! Estiquei a perna e... nada de alcançar o banco. Coloquei um pé na água para ver a profundidade e era fundo para ir andando. O jeito foi pular. Toda amarrada, com certeza a cena deve ter sido ridícula.
Enfim, lá estava eu no meio do banco que descobri não ser de areia e sim de lixo acumulado. E o troço mexia! Tinha bicho morto, copo de liquidificador e outras coisas que é melhor nem falar. E para melhorar a minha situação, o Robson berrou lá de longe: “faça a passagem andando”. Juro que tentei. A cada vez que eu andava, o “chão” mudava de lugar e desprendia um pedaço.

Nessa hora, já tinha um cordão de pessoas em volta do rio e gente perguntando se queria que chamassem o Corpo de Bombeiros! Quanto mais gente juntava, mais o lixo mexia, mais eu me estressava e mais o Robson pedia para repetir! Esganá-lo seria pouco, eu já imaginava todo tipo de tortura. Lá pelas tantas, ele se deu por satisfeito, falou que tinha valido e subiu o barranco com o tripé. E para sair do meio do rio? O banco tinha virado uma banqueta e ainda mais longe da margem. Parecia que ninguém tinha nada para fazer naquele dia, pois o povo não arredou o pé. Lá fui eu saltar para a margem. O fio atrapalhou e aterrissei de quatro na terra. Só não coloquei em prática meus planos de tortura, porque chegamos na TV e vimos que o sufoco rendeu um material lindo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Chuvas de verão? Sofrimento à vista!

Por Robson Rocha

Uma coisa que todo mundo que trabalha na externa do jornalismo aprende é a lidar com o humor de São Pedro. No período de outubro até março é difícil conseguir um dia em que você trabalhe com uma temperatura agradável e não transpire igual a uma tampa de chaleira.Geralmente quando você sai para uma reportagem o carro já está no sol, quando abre a porta do dito cujo, já vem um bafo quente. Entra e se sente em uma sauna seca. Só pelo calor já dá pra imaginar que o dia vai ser um... INFERNO. Aí você que está lendo diria: “é só ligar o ar condicionado!” – Brilhante! Mas isso prova que nunca entrou em um carro de reportagem.

Tudo bem. Vou seguir sua sugestão. Ligo o ar-condicionado. Surpresa! Ele não funciona. Aí é suar, literalmente, a camisa e torcer para o desodorante não vencer, digo, perder para o cecê.
Lá pelas 4 da tarde, São Pedro, gente boa, resolve dar um refresco. Baixar a temperatura? Não. Ele manda chuva.

Aí fu... Não posso escrever palavrão, senão a Michele vai reclamar. Mas voltando ao tempo, lembra que suei a tarde toda? Pois é, tenho que vestir a capa de chuva. Ela entra colando, puxando todos os pelinhos do braço.
Mas você vai lembrar da Michele e realmente... Ela tinha feito uma escovinha básica, rá, rá rá... Desculpe é que não resisti. O cabelo já era, o blaizer escondido pela capa... O modelito é lindo, isso sem esquecer a maquiagem e o detalhe do capuz.

Mas enquanto ela está na frente da câmera com a capa, eu desisti da capa. Eu suava tanto, que molhado por molhado, a chuva é fresca.

Na última enchente em Ewbanck da Câmara, cidade próxima à Juiz de Fora, fomos gravar. Enfiei minha maravilhosa 7 léguas; quando entrei na água, senti minha meia fria. Mas poderia ser o suor que foi resfriado junto com a bota, certo? Errado. A água encheu a bota, o solado dos dois pés rachou. E a molecada rolou de rir do mané arrastando os pés até poder passar a câmera pra Michele e tirar a bota.


Depois de comprar outro par de meias, calcei meu coturno e fui gravar. O Olavo Prazeres, da Tribuna de Minas, tirou a foto, logo depois. Dá para imaginar o meu humor, né?

E tem também a chuva de molhar bobo. É aquela que você não dá nada por ela e quando volta, uma hora depois, parece um pinto molhado. Dia de chuva fina é sinônimo de acidentes nas estradas e normalmente os veículos caem em ribanceiras, de pontes...
Em Ewbanck tem um viaduto de 30 metros de altura, onde sempre acontecem acidentes e os carros caem debaixo da estrutura e para fazer alguma imagem, tem que descer.
A descida tem muito mato, que você vai tombando com os pés, o mato se mistura com o mingau de água e terra e vira um escorregador. De cada 5 pessoas que descem, pelo menos três vão se encontrar com o chão. Na descida batem com a região glútea e na subida normalmente resvalam os lábios na relva. Posso dizer, por experiência própria, que a sensação não é muito boa. A relação de adjetivos que você quer dizer na hora é infinita.
E quando chega de volta à estrada molhado, sujo, com um vergão na testa (geralmente margem de estrada tem muito bambú e dá pra imaginar onde ele bate.) alguém te pergunta: “que cara feia é essa?” - Vou falar o quê?

sábado, 10 de novembro de 2007

"O Salvador da Pátria"

Por Marcelo Lima - Repórter da Rádio Solar

Olá amigos, Adorei o blog de vocês! Muito bem editado e com um layout leve e super agradável de ler (Nem parece que foi o Robson que fez..rs..rs).
Abaixo segue uma história fora do ar. Tenho a impressão que ficou longo, mas li e reli um milhão de vezes e não encontrei o que cortar.

Abraços Marcelo

"O Salvador da Pátria"


Mudanças bruscas na angulação de uma pauta sempre deixam o repórter meio perdido. Foi isso que aconteceu comigo em uma noite no final de 2006. Estava na redação finalizando a edição de retrospectiva do programa Ronda Policial, quando o porteiro da emissora me transferiuuma ligação. A voz apavorada do outro lado da linha avisava:
"Houve uma troca de tiros envolvendo policiais e assaltantes aqui! Duas pessoas estão mortas".

Sem que pudesse obter mais informações a ligação foi encerrada. Eram 23h30 de uma quinta-feira. Na emissora estavam apenas comunicadores e operadores de áudio. Pensei em acionar o motorista, mas não havia tempo suficiente para o deslocamento dele (ônibus), até a rádio onde pegaria o veículo da emissora. Eu só tinha o endereço e a possibilidade de uma boa reportagem para o Jornal da manhã.
Decidi equipar o meu próprio carro com "mantas magnéticas" com o logo da emissora e segui rumo a um bairro pobre da região sudeste de Juiz de Fora. O cenário era composto de ruas estreitas e vielas que lembram favelas cariocas. Sem o conhecimento de editor ou chefe de reportagem, assumi por conta própria os riscos que corria para obter a matéria. Tomei o primeiro susto no acesso à parte alta do bairro, uma rua escura e estreita. Acelerando o meu Fiesta 1.0 até o limite ouvi gritos para que eu parasse o carro.

Parei e fui interpelado por pessoas que eu não via o rosto. Uma delas perguntou:
- Vai aonde mermão?
Imediatamente respondi:
-Sou repórter da Rádio Solar, me ligaram daqui denunciando um crime.
Logo em seguida ouvi um grito com tom de autoridade:
- Deixa o cara subir! Foi a comunidade que chamô!!!

Tremendo dos pés a cabeça, engatei a primeira marcha e segui firme em direção à minha pauta. Confesso não ter visto nenhuma arma apontada na direção do meu carro, mas até hoje penso que ela existia. Não sabia quem eram as pessoas que me abordaram naquela espécie de “portaria”, mas tive a nítida sensação de que pensaram realmente em impedir minha entrada. Passado o susto inicial, logo acima encontro uma viatura daPM com dois policiais conversando do lado de fora. A dupla me olha com cara de espanto, enquanto eu os cumprimento e pergunto:

- Onde aconteceu a troca de tiros? Onde estão os corpos?
A resposta de um dos policiais é imediata e vem acompanhada de um conselho.
- É lá em cima no último escadão, mas se eu fosse você, não subiria lá não!!

Por alguns instantes pensei em desistir, afinal de contas, aquela reportagem já havia se tornado arriscada demais para o meu espírito de Tim Lopes. Por outro lado, pensava nos desconhecidos que me abordaram na parte baixa do bairro. Eles poderiam me hostilizar, já que a minha entrada foi condicionada ao fato de que a comunidade havia me convocado para uma matéria. Segui em frente. Fui orientado por um dos policiais a subir uma rua em contra-mão porque acima dela já me depararia com a cena do crime. No trajeto, olhos assustados me fitavam com surpresa pela minha presença naquele horário e diante daquela circunstância. Pensando que iria encontrar a dupla Robson e Michele (os repórteres mais bem informados de JF), subi o morro. Ledo engano. Eu era o único repórter na cena do crime.

Imediatamente meu carro pessoal foi cercado pelos moradores que gritavam revoltados:
- Assassinos! Mataram inocentes! Covardes!!!
Eu acabara de me tornar o Salvador da Pátria! Naquele momento me senti o Governador do Estado, o Secretário de Segurança Pública ou qualquer outra autoridade com poder para exonerar todos os policiais que estavam ali; uma espécie de Sassá Mutema, mas sem professorinha, porque eu estava totalmente sozinho com o meu ímpeto jornalístico.

Tive que pedir licença aos populares para abrir a porta do carro. Na minha frente havia um cordão de isolamento com cerca de 50 policiais militares, mas para chegar até lá, tinha que ouvir as informações que vinham de curiosos, moradores e alguns que se identificaram como sendo da família de uma das vítimas que eu ainda não sabia quem era. Me aproximei do cordão e foi recebido por um Major, já conhecido meu, que sentenciou:
-Você é louco!! O que você está fazendo aqui?
Respondi a ele:
- Me conta o que aconteceu. Vou ser direto, disse o policial: "Não posso dar grandes informações por que fui chamado para comandar essa operação de conter a população que está revoltada, mas posso te contar em Off. Policiais da viatura “tal” subiram aqui à procura de dois homens que assaltaram uma empresária no Bom Pastor (bairro de classe média alta na zona sul); e durante o cerco, um homem cruzou essa viela com uma arma na mão e um colega atirou nele. Ao se aproximar, o colega percebeu que a arma era de brinquedo, mas já não havia o que fazer. Trata-se de um jovem de 18 anos. O Corpo de Bombeiros teve dificuldade de acesso ao local para socorro à vítima e foi aí que me acionaram para cá, com a missão de conter a população que já começava a hostilizar a polícia. Não sei se houve troca de tiros. Não posso avaliar a atitude do meu colega, mas essa é a verdade".

Naquele momento, olhei em volta e percebi que eu seria o porta-voz do povo quando ultrapassasse o cordão de isolamento de volta. Isso porque os boatos já haviam tomado conta do bairro e davam conta de que dois jovens que eram irmãos tinham sido mortos, ou ainda, várias outras versões que não condiziam com os fatos. Caberia a mim dizer a verdade para a população, alguns sem saber o que acontecia de verdade e proibidos de chegarem até suas casas em razão do isolamento para garantir o trabalho da policia técnica.

Me deparei com uma questão. Como dar a informação sem provocar uma convulsão social e o violento confronto entre moradores e a polícia comigo na linha de tiro?
Respirei fundo e passei debaixo do cordão de isolamento voltando ao encontro dos moradores. Imediatamente fui cercado por eles. As perguntas eram tantas, e ao mesmo tempo, que deixei a condição de repórter e me tornei entrevistado. Os questionamentos se seguiram rapidamente aos gritos de alguns mais inflamados:
- Ta conivente com os pm´s assassinos!! Lincha!!! Lincha!!!

Meu carro se encontrava a uns 5 metros de distância e já sabia que teria dificuldades para deixar o bairro. Sentindo que a atribuição de controlar a população havia passado para mim desde a minha chegada ao local do crime, passei a conversar com todos, sem mesmo saber quem eram e que ligação tinham com o fato.
Liguei o gravador e coloquei na boca de todos que se aproximavam. Satisfeitos por terem recebido voz da imprensa, com o equipamento ligado fui gravando tudo e empurrando a massa na direção do meu carro. Ao chegar na porta, desliguei o gravador e disparei a seguinte frase:

Olha, o que aconteceu foi um absurdo!! Preciso acionar o Governador, o Secretário de Segurança, enfim, preciso obter um posicionamento deles, mas para fazer isso tenho que ir para a redação! Acompanhem a programação.

Com essas informações consegui entrar no carro, mas ainda temendo pela minha integridade física. Consegui ligar o carro, virá-lo na rua estreita e deixar o local sem maiores problemas. Entretanto, pelo caminho ainda ouvi alguns gritos de moradores que tinham visto o meu carro subir com identificação da emissora, ligaram o rádio, e claro, não ouviram nada, pois diante da minha situação não havia condição de transmitir um flash sequer. Isso fez com que a teoria de alguns inflamados, aparentemente se confirmasse. Eu estaria realmente do lado dos policiais. Deixei o bairro tremendo com medo de pedradas e sob os gritos de Vendido!! Covarde!! Conivente!!

Essa foi, sem dúvida, uma experiência que me ensinou muito e me fez crescer profissionalmente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Cobertura inesquecível 2

Por Michele Pacheco

Já contei parte das nossas aventuras na enchente de 2000 no Sul de Minas. No primeiro texto, terminei falando que geramos uma matéria com imagens exclusivas de Aiuruoca e São Lourenço. Achamos que enfim viria o descanso merecido. Mas, o recado foi outro.

Tivemos a tarde para nos organizar e partir na madrugada seguinte rumo ao Sul, sem previsão de destino nem de retorno. No caminho, combinamos nossa estratégia de ação. Pouco tempo em cada cidade: numas faríamos imagens e entrevistas, em outras, faríamos imagens e passagem.
Em São Lourenço, a água tinha baixado um pouco e conseguimos acesso de carro a uma parte do centro. Entramos num barco e fizemos imagens das áreas alagadas. Uma cena que não esqueço, foi passar pelo Parque e ver inúmeros galões de água mineral flutuando. Com medo do que iria acontecer nos dias seguintes, moradores se arriscavam na enchente para recolher as garrafas e os galões. Achei o fato importante e usei como passagem, dentro do barco.

Em Três Corações, nos arriscamos por uma ponte interditada para evitar um desvio demorado. As imagens nos assustaram. Em alguns bairros, só dava para ver as antenas parabólicas acima do nível da água.

Fomos cobrindo todas as cidades atingidas até a divisa com São Paulo, origem das primeiras trombas d'água. Missão cumprida, seguimos para Varginha com o que tínhamos conseguido.
Ficamos à disposição do Péricles de Souza, que era o editor responsável da TV Alterosa no Sul de Minas, para dar suporte pelo tempo que fosse necessário, já que todas as equipes estavam sobrecarregadas.

No dia seguinte, fomos enviados às cinco da manhã para Pouso Alegre. No caminho, as cenas eram de devastação e água por toda parte. Ao mesmo tempo, era deslocada de BH a equipe técnica com os equipamentos de Up-link para garantir a transmissão ao vivo. O governador Itamar Franco tinha transferido a sede do governo para lá, em função das tragédias da chuva. Fomos recebidos na entrada de Pouso Alegre e cruzamos as avenidas alagadas. Passamos no sufoco e vimos um carro de Varginha ficar preso na enchente. Enfim, equipe reunida, começou a maior aventura da minha vida.


Uma turma ficou no local onde estava montada a sede do governo de Minas, acompanhando os passos do governador e entrando ao vivo de lá. Nós, fomos para a enchente. Só tivemos tempo de dar alô ao pessoal e correr para o local da nossa entrada. Era na mesma avenida onde tínhamos passado com dificuldade. Os técnicos de Varginha acertaram o sinal. Eu e o Robson acertamos a ação. Fomos com cabos e tudo para dentro d'água, para desespero da equipe técnica. Eu ia andando até perto das casas alagadas. A idéia dele era entrar na casa e mostrar os estragos e objetos abandonados. Mas, já no primeiro degrau entre a rua e a casa, a água chegou no meu joelho. Antes que eu tivesse que entrar nadando, preferi mostrar as casas e a avenida, que é o principal acesso à cidade. Tudo pronto, Benny Cohen e Laura Lima deram a deixa e mandei ver no texto combinado. No fim do vivo, eu passava alerta da polícia de que a avenida estava inundada e que os carros pequenos não estavam mais conseguindo passar. Quem aparece na imagem? Um Fiat Uno a toda, embalado para passar e desmentindo ao vivo a informação. Mas, a ajuda divina funcionou e o desmancha-prazer começou a ratear e parou no meio da enchente. Isso tudo aconteceu em segundos, no ar. Pelo retorno, eu ouvia o pessoal falando do carro e rindo. O jeito foi improvisar: "E quem se arrisca, acaba como aquele motorista, preso na enchente". O pior foi ouvir a gozação depois, do pessoal da técnica dizendo que eu tinha azarado o coitado do motorista.
As transmissões ao vivo são sempre imprevisíveis. Mas, essa é uma outra história!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Cobertura inesquecível

Por Michele Pacheco

Todo jornalista tem lembranças do trabalho mais marcante que já fez. Um dos meus preferidos foi a cobertura das trombas d´água no Sul de Minas no início de 2000. Uma seqüência de tempestades violentas deixou inúmeras cidades inundadas.


Na época, eu e o Robson trabalhávamos na sucursal da TV Alterosa em Juiz de Fora (a sucursal virou emissora dois meses depois). Lembro que passamos o dia em São Brás do Suaçuí, perto de Congonhas, fazendo uma reportagem produzida para o Alterosa Esporte com o Lincoln, que jogava no Atlético Mineiro. Depois de um dia numa fazenda, sob um sol de rachar, chegamos em Juiz de Fora no fim da tarde, doidos por um banho e descanso. No meio do caminho, veio a ligação de Belo Horizonte. Era a Cristine Cruz, produtora do interior (hoje na Record Minas), avisando que uma tempestade tinha inundado Aiuruoca e que a equipe tinha que seguir para lá o mais rápido possível. Fomos direto.
Chegamos na cidade por volta de sete da noite. O carro teve que ser abandonado na entrada da cidade, pois as ruas estavam alagadas. O centro fica no alto e o córrego passa por várias ruas mais baixas. Resultado, atravessamos a inundação, rodamos todo o centro à pé, fomos às casas e empresas alagadas, ouvimos moradores. Fomos para o hotel por volta de meia-noite.
Às cinco da manhã, estávamos partindo para Caxambu. Aproveitamos que a cidade é colada em Aiuruoca para pegar o rescaldo dos estragos, aliviando o serviço da equipe de Varginha. Ficamos sabendo que São Lourenço estava isolada e que a equipe do Sul não tinha conseguido entrar. Já que estávamos perto, resolvemos tentar.

Na entrada de São Lourenço, a ponte estava interditada, com risco de desabamento. Achamos que nosso esforço tinha ido por água abaixo, mas vimos um barco e pedimos carona. Em dez minutos, gravamos a parte alagada mais próxima e os moradores nos telhados das casas. O único susto foi quando um monte de galhos agarrou na hélice do barco e nós ficamos à deriva na correnteza forte, correndo o risco de bater numa casa no meio do caminho ou na rede de alta tensão que ficou próxima da água. Imaginem o desespero do Robson, que não sabe nadar e tem 1,90m, espremido no fundo do barco pequeno para não esbarrar nos fios. Tudo deu certo e voltamos para a estrada.
Tínhamos que estar em Juiz de Fora até as dez da manhã para gerar o material para Belo Horizonte pela Embratel. Foi um sufoco só, mas valeu a pena. Furamos todas as outras emissoras com as imagens inéditas. Naquele dia, fomos a única equipe de jornalismo a conseguir imagens de dentro de São Lourenço. Missão cumprida, só queríamos descansar. Mas, São Pedro tinha outros planos e mandou mais trombas d'água para o Sul. Resultado, fomos deslocados sem previsão para voltar para casa. Mas, isso é outra história...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Pequenos amigos

Por Robson Rocha

Algumas matérias que vamos fazer nos surpreendem. Certa vez, nos passaram uma pauta em Alto Rio Doce, no Campo das Vertentes. Era o caso de uma família, tema de uma pesquisa da USP. Eles tinham problemas graves de crescimento, precisavam de hormônios e a universidade não estava enviando nenhum medicamento, pois eles não tinham como guardá-los, já que não tinham energia elétrica e os remédios precisavam ficar em geladeira.


















Ajeitamos a bagagem e saímos de Juiz de Fora em direção à Barbacena. Até aí tudo bem, cerca de 100km de estrada asfaltada. O pior seriam os pouco mais de 50km de estrada de chão de Barbacena a Alto Rio Doce.
Céu azul, sol quente, tempo bom. Bom? Bom, menos para a Michele e para mim que estávamos em uma Parati 93, sem ar condicionado. Nossas condições: passa um carro, fecha o vidro correndo. Não queríamos nos intoxicar e, também, porque a Michele não ficaria bem gravando uma passagem loira-poeira. A poeira baixou, abre o vidro correndo para não desidratar. E tanta gente paga para fazer sauna seca!

Enfim chegamos em Alto Rio Doce. Esqueci de contar um detalhe da pauta: teríamos que procurar a família, pois eles não tinham telefone e ninguém conseguiu entrar em contato. Na cidade tivemos a triste notícia: eles moravam na área rural entre Alto Rio Doce e Cipotânea.





















De volta à poeira, abre porteira, fecha porteira, pede informação. Falando em informação, na área rural é difícil encontrar alguém para pedir uma referência. “Depois da encruzilhada você vai pra...” foi a resposta que mais ouvimos. Erramos o caminho mais de não sei quantas vezes. Fomos parar em currais, estradas sem saída...

Enfim, chegamos. Era uma casinha perdida num vale. Chamamos e ninguém nos atendeu. Dos fundos da casa vinha um cheiro maravilhoso de torresmo. Fomos entrando pelo quintal e entorno de um tacho de cobre, um grupo trabalhava. Eles tinham matado um porco e, enquanto uma mexia o torresmo no tacho, outros picavam pedaços de carne. Eles simplesmente nos ignoraram. Depois descobrimos que alguns amigos da imprensa, com a arrogância que é peculiar a alguns profissionais da nossa área, tinham tratado mal a família, exigindo algumas coisas na hora da gravação. Mas isso não vem ao caso. Conseguimos quebrar o gelo e enquanto a Michele conversava com eles pegando dados para a matéria, fui fazendo imagens.
Há certa altura, ouvimos alguém tossindo, parecia um bebê, aí saiu da casa uma mulher, de 90cm de altura, que mal batia na minha cintura, era ela que estava tossindo.

Nesse bate papo, cometemos uma pequena gafe, estávamos tratando todos como mulheres. A voz deles era uma mistura de criança com mulher. Só caiu a ficha, quando um deles nos alertou: nós dois somos homens.
Eles nos ofereceram o que tinham de melhor: café, angu e carne. Dá para imaginar a cena? A Michele de blaizer, sentada em um barranquinho com uma caneca de café, um prato de angu e bife de fígado na mão.
A casa por dentro parecia uma casinha de boneca, ou a casa dos 7 anões.
Saímos deixando mais um grupo de amigos. Só voltamos lá mais uma vez e hoje não sabemos como estão.
Guardo comigo o carinho deles nos abraçando. Só isso valeu toda a dificuldade da viagem.

Os amigos que fazemos no caminho é o que mais nos gratifica nessa profissão.



segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Reconhecimento

Por Michele Pacheco

Todo mundo quer reconhecimento! Ele é o combustível que nos mantém funcionando. Quem está na profissão sabe que nem sempre somos reconhecidos dentro do nosso ambiente de trabalho. É comum recebermos mais respeito por parte da concorrência do que dos colegas de sala. Trabalhamos numa área em que a vaidade dita regras. Infelizmente, algumas pessoas dão mais valor a ela do que ao aprendizado constante.


Mas, o melhor reconhecimento que podemos receber é o carinho do público e das pessoas com quem lidamos nas reportagens. Estou há dez anos trabalhando em TV e ainda me emociono quando param nossa equipe na rua e pedem autógrafo. Num mundo tão corrido e competitivo, alguém encontrar tempo para nos dizer palavras carinhosas e comentar sobre uma matéria ou outra é uma recompensa e tanto. Sempre me pergunto se estou conseguindo passar a notícia da forma correta, se todos vão entender o assunto, se devo simplificar mais a linguagem rebuscada de certas áreas, etc. Saber que as pessoas se lembram do que viram na TV, com tantos outros telejornais, é motivo de satisfação sempre.


Acho que somos apenas um meio para levar a notícia até o telespectador. Por isso, quando recebemos homenagens a sensação é de dever cumprido. A Polícia Militar e os Bombeiros Militares sempre foram muito generosos comigo e com o Robson. Guardamos com carinho todas as homenagens que já recebemos. Ao olhar para elas, vemos mais do que certificados e troféus, vemos presentes de amigos que fizemos ao longo da nossa carreira.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A matéria do dia

Por Robson Rocha

Muitas vezes passamos o dia fazendo materiais fracos, sem nenhuma importância como notícia. E no final do expediente, quando faltam cinco minutos para você ir para casa descansar o pobre esqueleto, pois todo mundo acha que ficar com uma câmera no ombro não cansa, chega uma informação quente! É a matéria pra abrir o jornal.

A produtora me aborda no corredor do 2º andar da emissora com um ar apavorado e um pequeno pedaço de papel rasgado, perguntando onde estava a Michele. Nem esperou minha resposta e com rapidez me entregou o papel que li rapidamente -“Rua Francisco Sobral perto do antigo campo do social entre Santa Luzia e Santa Cecília” – Aí ela me disse o motivo da pressa – “Olha, uma mulher foi encontrada morta e dividida ao meio nesse endereço” – Desço a escada, encontro a Michele, passo-lhe a informação e o pedaço de papel. Entramos no carro. Nessa hora, até esquecemos que nosso horário de trabalho já acabou. Ficamos irritados com o trânsito, gastamos 10 minutos para andar 100 metros da ruazinha da TV e entrar na Avenida Rio Branco (a principal Avenida de Juiz de Fora). Seguimos com o pensamento em como abordar o fato e como seria a cena. É sempre complicado gravar em locais de crimes bárbaros, temos que fazer nosso trabalho sem “agredir” os familiares. Mas nossa preocupação maior era o tempo, estávamos demorando muito para chegar ao local.

Como a referência da rua era muito vaga, pois não sabíamos em qual dos bairros ficava a rua, apostamos indo por Santa Luzia e parávamos em todo cruzamento para pedir informações de onde era a tal rua. Enfim, encontramos a rua, andamos uns 300 metros e avistamos um grupo de pessoas, mas nem sinal de polícia e bombeiros. Seguimos, só podia ser ali o local da matéria do dia.
Quando paramos a Parati da TV ao lado do grupo (cinco mulheres, um homem e uma menininha). Eles nos olharam e começaram a rir sem parar – “A gente sabia que a imprensa ia vir” – e não paravam de rir. Perguntamos se eles sabiam de algum movimento de policiais na rua. Eles disseram que sim, mas já tinham ido embora. E explicaram o motivo do riso: o corpo de uma mulher partida ao meio que todo mundo estava procurando, eram na realidade dois cães mortos, dentro de sacos plásticos, e enterrados em um barranco. Deixamos o local ao som das risadas dos moradores. E lá se foi a nossa matéria do dia.

Fala a verdade!

Por Michele Pacheco



Adorei a peça de teatro montada por bombeiros de Belo Horizonte. Com um tom leve e engraçado, eles deram o recado sobre um assunto sério: a prevenção. Os dez bombeiros-atores me surpreenderam pela atuação. A trama se passa num pelotão do interior. Durante a vistoria de um oficial superior, o grupo atrapalhado apronta de tudo. Depois de me contorcer de rir, cheguei à conclusão de que foi a palestra mais divertida que já acompanhei. Eles encontraram uma forma simples de passar alertas que são dados pelas equipes de prevenção do Corpo de Bombeiros, como cuidados em cachoeiras, estratégias para tornar a casa mais segura e atitudes que ajudam a evitar incêndios.



A peça é interativa e eu fui a “convidada” da vez em Juiz de Fora. Apesar da profissão que escolhi, sou tímida, do tipo que se esconde da câmera em casamentos e festas. Trabalhando, eu me sinto à vontade, mas daí a subir num palco no meio de uma peça... Mas, lá fui eu “interpretar” uma gestante em trabalho de parto no meio de um incêndio. Nos batidores, entre uma correria e outra, os atores me disseram para ficar tranqüila, pois eu só tinha que gritar, e muito! Fácil? Que nada. Quem disse que eu conseguia parar de rir para gritar?! Acabei dublada! O título da peça é “Fala a verdade – você não vai morrer de rir porque o bombeiro não deixa”. O grupo viaja pelo estado de Minas Gerais fazendo as apresentações. Recomendo a todos que queiram se divertir e aprender ao mesmo tempo. Parabéns a estes bombeiros que inovaram com talento e criatividade. E, eles ainda fazem um trabalho solidário. Por onde passam, o ingresso é um quilo de alimento não perecível. O material arrecadado é doado a instituições de caridade do município onde foi recolhido. Quem quiser mais informações ou agendar uma apresentação, é só entrar no site dos bombeiros http://www.bombeiros.mg.gov.br/ e procurar o ícone do Pelotão 193.

Aproveitando oportunidades

Por Michele Pacheco & Robson Rocha

Exemplos de que dá certo tentar a sorte cobrindo férias ou lutar por vagas de estágio.



Michele Pacheco
Formada em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (92/95), estreei em televisão cobrindo férias na TV Alterosa. Na época, 1997, a emissora tinha apenas uma sucursal na Zona da Mata e uma equipe de três pessoas: Stela Amorim – repórter, Robson Rocha – repórter cinematográfico e Leon Pansard – executivo de contas. Fiz as férias da Stela em julho e foi uma experiência incrível. Comecei na TV tendo orientações de grandes profissionais, como Benny Cohen, Antônio Cotta, Madalena Fagundes, Rogério Corrêa e muitos outros.

Com matérias exibidas para todo o estado, consegui uma proposta de trabalho em Uberlândia. Estava quase assinando o contrato, quando a Stela teve problemas pessoais e pediu demissão. Fui contratada e visto a camisa até hoje.
Discordo quando dizem que o mercado de jornalismo é fechado, quase impossível de entrar. Tem espaço para todo mundo, basta investir no próprio potencial, acreditar no que está fazendo e se manter antenado a tudo que acontece no setor. Um profissional desinformado e acomodado não sobrevive nem se destaca no jornalismo de hoje. Informação é ouro, seja para jornalistas formados, seja para estudantes de comunicação. Se não criarmos o hábito de buscar as notícias desde cedo, vamos engrossar a lista de profissionais medíocres que se pautam pelo que os outros já fizeram, que buscam em jornais e rádios as notícias que deveriam ter sido descobertas na véspera, que fazem todo ano a mesma coisa nas datas comemorativas. As chances estão aí, basta saber aproveitá-las.



Robson Rocha
Em 1988 estava terminando o curso de Eletro-técnica no CTU da Universidade Federal de Juiz de Fora, quando consegui a oportunidade de fazer um estágio na TV Globo Juiz de Fora. Meu pai ficou sabendo da vaga e me inscreveu por saber que eu gostava desse negócio de televisão. O estágio foi legal. Aprendi todas as etapas da parte operacional.
O interesse e a seriedade com que encarei a oportunidade compensaram a minha personalidade forte. Ralei muito, surgiu uma vaga e consegui ser contratado pelo setor de Engenharia como câmera de estúdio. No estúdio fazia Santa Missa em Seu Lar, MGTV 1 e 2, Globo Comunidade e muitos comerciais.

Um tempo depois me promoveram pra externa. Quando o departamento de produção comercial acabou fiquei um tempo por conta do jornalismo, até 1996, quando passei para a TV Alterosa.

Não teria como agradecer a todos que me ajudaram e ajudam. Acho que tudo o que aprendi valeu a pena. Me ensinaram que operar uma câmera é mais do que apertar botões. O conhecimento técnico do equipamento é fundamental. Se a câmera dá pau, é importante saber avaliar o problema e passar informações precisas para o técnico, o que agiliza a solução. Mas como um chefe me disse uma vez, “se você não tiver sensibilidade, será simplesmente mais um”.
A televisão hoje não é a mesma coisa de 19 anos atrás, mas sempre falo com os estagiários que conheço que uma coisa não mudou: saber mais do que o cargo exige coloca o profissional alguns passos à frente dos colegas.