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JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS, Brazil
Esperamos com este Blog dividir um pouco das inúmeras histórias que acumulamos na nossa profissão. São relatos engraçados, tristes, surpreendentes...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Queimadas dão trabalho em Juiz de Fora

Por Michele Pacheco

Hoje foi um daqueles dias em que a gente olha para o céu e só vê fumaça.
As queimadas foram registradas pelos bombeiros em cinco bairros das regiões sul, leste e centro.
Os bairros onde as ocorrências foram registradas foram Bela Aurora, São Benedito, Nossa Senhora Aparecida, Jardim de Alá e Paineiras.

Nós acompanhamos o incêndio entre os bairros Paineiras e Dom Bosco.
Moradores da rua Padre Café chamaram os bombeiros ao avistar a fumaça e o fogo por volta de quatro da tarde.
A queimada começou numa moita de bambu na parte de baixo do morro, nos fundos de algumas casas na rua Olegário Maciel.
Depois, se alastrou morro acima.

Procuramos um local bom para fazer imagens na parte de baixo, subimos várias ruas no Dom Bosco e avistamos de longe o fogo.
Aproveitamos para fazer algumas imagens e improvisar uma passagem.
Quando a gente não sabe o que vai render, tudo o que tem deve ser aproveitado.
Eu até poderia achar imagens e informações melhores, mas a passagem tinha dados do início da ocorrência, o que fazia com que ela não perdesse o sentido independentemente do que rolasse depois.

Seguimos o rastro do fogo e da fumaça até uma área nos fundos da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Ainda não era o que queríamos.
Fomos testando todos os caminhos que conhecíamos naquele trecho, até achar um ponto privilegiado.
Lá, estava um caminhão-tanque dos bombeiros com três militares trabalhando no combate às chamas.

A vegetação rasteira e seca foi como combustível, alimentando a força do fogo.
As labaredas eram arrastadas pelo vento forte e se espalhavam rapidamente.
Procurando não atrapalhar o serviço dos bombeiros, buscamos as melhores imagens.
Aproveitei para gravar mais uma passagem, num ângulo que parecia que o fogo estava bem perto e com os bombeiros em ação.
Acho legal mostrar o repórter no local do fato, enquanto ele está ocorrendo.
Não gosto de passagens frias, distantes, quando tudo já acabou e o repórter fica com aquela cara de perdido no mundo sem movimento algum ao fundo.

O Daniel e a Leiliane nos acompanharam hoje à tarde.
Ele está treinando câmera e ela reportagem.
Aproveitamos o incêndio para deixar que eles se virassem e fizessem uma reportagem à parte.
Daniel garantiu as imagens e vai editar o material.
A Leiliane fez passagens e texto.
O resultado desse trabalho não vai ao ar, mas serve de currículo.
Não vejo melhor forma de aprender do que fazendo.
E eles mostraram seriedade e sede de conhecimento.
Tenho certeza de que em breve vão se destacar na profissão.

À noite, estávamos fazendo uma reportagem na zona norte, quando avistamos um pasto em chamas.
Mais uma vez, corremos atrás do fogo.
Subimos e descemos ruas até chegar bem perto.
O incêndio destruiu uma área equivalente a dois campos de futebol.
As labaredas consumiram o mato rasteiro e chamaram atenção de longe ao queimar árvores altas.
Apesar de perigoso, ninguém pode negar que o fogo é uma cena bonita e prende a atenção.
Como nesse caso no bairro Fontesville não havia casas nem moradores em perigo, os bombeiros não foram chamados.

Segundo dados do 4o Batalhão de Bombeiros Militar, em Juiz de Fora foram registrados, de janeiro a julho de 2008, 124 focos de incêndio em lotes vagos, matas, pastos, etc.
No mesmo período deste ano, o número caiu para 87 ocorrências.
Como em julho e agosto fez muito frio e choveu bastante, parece que neste ano vai se repetir o que ocorreu nos últimos invernos.
O mês de setembro vai dar mais trabalho para os bombeiros.
Tomara que a população se conscientize do perigo e colabore.

O triste de quando acompanhamos alguma ocorrência de incêndio, é que nos empolgamos e ficamos o mais perto possível do fogo e dos bombeiros, sem prejudicar a ação deles.
O material fica legal no ar, mas nos bastidores...
O cabelo fica colado na cabeça e cheirando a queimado.
Graças ao calor e à fuligem, a maquiagem ganha um tom a mais no bronzeado, de fazer inveja ao melhor blush do mercado.
Sem falar na roupa que fica suja e com cheiro de defumada.
Aí, para completar, só falta a pauta seguinte ser alguma solenidade, para a gente morrer de vergonha ao encarar as autoridades como dois sachês de queimada.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Processo de beatificação de Isabel Cristina

Por Michele Pacheco

Passamos a tarde em Barbacena, acompanhando as celebrações de encerramento da etapa brasileira do processo de beatificação de Isabel Cristina Mrad Campos.
Foi na Igreja Matriz da cidade, no Santuário de Nossa Senhora da Piedade.
Havia tantas pessoas que muitos fiéis tiveram que acompanhar a celebração do lado de fora da igreja.
Os responsáveis pelo cerimonial calcularam em torno de duas mil pessoas reunidas lá para rezar pela jovem que é considerada Serva de Deus desde 2001.

A história é muito triste.
Isabel Cristina nasceu em Barbacena, mas morava em Juiz de Fora para estudar.
Em 1 de setembro de 1982, ela estava no apartamento onde vivia, na rua Barbosa Lima, centro da cidade, quando um homem entrou.
Ele tentou estuprar a estudante, mas ela reagiu.
Acabou agredida com uma cadeira, amordaçada e esfaqueada 15 vezes.
Segundo a igreja, a jovem morreu, mas manteve a virgindade e a pureza.

Os religiosos lembraram na época que o caso parecia um martírio e que a fé da jovem sempre tinha sido observada por todos que conviviam com ela.
O crime cruel e brutal chocou a sociedade na época e ganhou destaque na imprensa.
Ainda hoje, há relatos sobre o "Crime da Barbosa Lima".
O assassino seria um homem que estava prestando serviço num apartamento vizinho.
Ele chegou a ser preso.
Foi condenado a 19 anos de prisão, cumpriu 6, tentou fugir, foi recapturado e enviado para a penitenciária de Ribeirão das Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Fugiu de lá e nunca mais foi encontrado.
Em 2001, um grupo de padres se uniu em prol da beatificação de Isabel Cristina.
O processo foi instalado e ela recebeu do Vaticano o título de Serva de Deus.
Oito anos depois, a etapa brasileira das investigações foi concluída.
A missa foi celebrada diante de uma urna com os restos mortais da jovem mineira, exumados na semana passada.

A fé reuniu católicos de várias cidades da região.
A multidão mal conseguia respirar na igreja lotada, mas não se importava.
Um passo para cá, outro para lá, um empurrãozinho aqui, um pedido de desculpas ali.
E cada um tentava chegar o mais perto possível da urna.

Esse tipo de cobertura jornalística é o pesadelo de qualquer repórter e cinegrafista, independentemente da fé que tenha.
Você já vai sabendo que vai ter os pés pisados, as costelas cutucadas, vai ouvir reclamação por estar na frente de quem nem consegue se mexer, mas quer ver tudo...
E o sufoco foi grande!

Primeiro, eu e o Robson nos reunimos ao restante da imprensa no altar.
Mas, aí vieram as reclamações.
"Podem chegar para o canto para os padres passarem?", "aqui vocês vão atrapalhar a visão de quem está sentado!", "aí vocês estão impedindo que os padres vejam o povo"...
E lá ia o grupo compactado de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas de um lado para o outro.

Esperei os celebrantes e os convidados ocuparem os lugares deles no altar, desci e gravei minha passagem (momento em que o repórter aparece no vídeo) perto da urna.
Depois, avisei ao Robson que eu ia me misturar à multidão, em busca de um lugar onde conseguisse manter os dois pés no chão ao mesmo tempo.
Doce ilusão! Em baixo estava ainda mais apertado.

Depois de acompanhar o Robson ao alto da igreja, para fazer imagens diferentes da multidão, eu me perdi dele.
Cansada de ser espremida, tive a brilhante idéia de dar a volta pela sacristia e entrar por trás do altar, num espaço que parecia pouco ocupado.
Teria dado certo, se outras dezenas de pessoas não tivessem tido a mesma idéia.

Enfrentei a fila na sacristia.
Passo a passo fui chegando devagar e consegui um lugarzinho bem legal.
Aí, lembrei que o Robson não tinha me seguido.
Olhei para baixo e vi uma câmera "flutuando" em meio a multidão.
Ia para um lado, tombava para o outro, era arrastada junto com um grupo em movimento, até chegar ao altar.
Foi então que reconheci meu marido.
Ele estava suado e vermelho depois do esforço de manter a câmera pesada no alto da cabeça para não machucar ninguém.
Quando viu um pedacinho da escada do altar livre, ele sentou como se tivesse acabado de achar um canto do paraíso.

Eu bem que tentei mostrar onde estava.
Fiz sinal discreto.
Levantei o microfone até a altura do ombro, que foi o máximo que consegui com os braços entalados entre o altar e umas três pessoas, mas nada.
O jeito foi mandar mensagem pelo celular.
Essa foto mostra bem o ângulo de visão que eu tinha de trás do altar.

Enfiando o celular entre um galho de trigo e uma haste de samambaia dos arranjos do altar, consegui registrar um pouco da missa.
Ah, e antes que me critiquem pelo desrespeito, eu tinha outros quinze acompanhantes numa escadinha de madeira atrás do altar.
Eram padres, fiéis e funcionários da igreja dispostos a registrar o momento histórico.

Enquanto eu acompanhava a missa e ia tirando minhas fotos, comecei a pensar no que ia acontecer se a nossa escada-arquibancada caísse com aquele peso todo.
Já podia até me ver estatelada no meio do altar.
Tratei de arrumar um local mais seguro, no vão da porta, espremidinha entre uma mesa e a passagem.

Eu desafio qualquer um a encontrar o Robson nas fotos.
E, olha que ele estava cercado por outros cinegrafistas e com a câmera na cabeça!
Era um mar de gente.
Ouvi o comentário de um padre satisfeito por ver a igreja tão cheia e lamentando que isso não ocorra sempre.
Realmente, a cena era bonita de ver!

Acabada a missa, os celebrantes trocaram os trajes e deram início ao cerimonial de encerramento da fase brasileira do processo de beatificação.
Mais uma vez, a imprensa teve que deixar o altar e se espremer para acompanhar tudo no meio da multidão.
O Robson e o Gilberto, da TVE Juiz de Fora, se viraram com a câmera na cabeça para driblar os curiosos que entravam toda hora na frente deles.

A urna com os restos mortais da Isabel Cristina foi lacrada.
Fitas vermelhas foram passadas em forma de cruz e o Arcebispo de Mariana, Dom Geraldo Rocha, usou cera e um selo de metal para marcar os lacres.
Antes disso, ele já tinha abençoado a caixa com os ossos, que vai ficar na capela do Santuário de Nossa Senhora da Piedade até o fim do processo.

Todos os documentos recolhidos em oito anos de investigação da igreja católica sobre a história e as graças obtidas por intercessão da jovem mineira foram reunidos e colocados numa caixa de madeira.
Ela também foi lacrada e entregue aos representantes do Vaticano.

O juiz do processo, padre Roberto Natali, disse que entre os documentos estão relatos de pessoas que dizem ter conseguido graças ao orar a Isabel Cristina, cartas da jovem e depoimentos sobre a vida de pureza e devoção que ela teve.
O padre lembrou que o processo pode demorar até 15 anos para ser concluído.

Entre as pessoas que afirmam ter conseguido milagres por meio da Isabel Cristina está a Dirlene Belo.
Ela estava na igreja e contou que passava sempre pelo cemitério de Barbacena e rezava no túmulo da estudante que morreu de forma trágica.
Um dia, Dirlene chorou e pediu ajuda para conseguir um emprego para a filha, que passava dificuldades.
A dona de casa conta que foi atendida e, desde então, teve ainda mais fé na beatitude da jovem.

Depois de quase três horas de trabalho no meio da multidão, de pés doloridos e pisoteados, pudemos voltar a Juiz de Fora com o material.
Para trás, deixamos uma fila de católicos ansiosos para tocar a urna com os restos mortais.
Alguns beijavam a caixa, outros rezavam, pediam graças, choravam de emoção.
Se Isabel Cristina vai ser considerada beata ou não, não sei.
Mas, que ela movimentou a Igreja Católica nas últimas semanas, não há dúvida.

Os pais da jovem acompanharam tudo.
A mãe dela não quis gravar entrevista, alegando que não estava bem de saúde e não conseguiria falar.
O pai disse que esse reconhecimento por parte da igreja ajuda a diminuir um pouco a dor da perda.
A família sempre soube que Isabel Cristina era especial.
Agora, todos aguardam ansiosos o resultado do processo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

UJFJ lança pesquisa sobre jovens, escola e professores

Por Michele Pacheco

Foi anunciado hoje à imprensa o resultado da primeira fase do projeto "Fala Juiz de Fora".
A pesquisa busca ouvir a população sobre questões importantes.
As respostas são avaliadas e divididas por categorias.
O objetivo é traçar o perfil social dos juizforanos e apresentar propostas para melhorar as condições de vida na cidade.

Na primeira etapa, moradores de todas as faixas etárias e classes sociais responderam a perguntas sobre juventude, escola e professores.
Segundo o coordenador do trabalho e Diretor do Centro de Pesquisas Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, Carlos Alberto Botti, o resultado surpreendeu.

Quando perguntados sobre que palavra vinha à memória quando se ouvia falar da juventude, as pessoas responderam desde drogas e violência, até alegria e esperança.
Quando se perguntou o que os entrevistados achavam dos jovens, a situação piorou.
A maioria foi bem pejorativa, falando de drogas, violência, desrespeito e rebeldia.

O que chamou a atenção da equipe de pesquisa é que entre os entrevistados da faixa etária dos 16 aos 29 anos, a visão é mais pessimista quanto aos jovens.
Isso preocupa os pesquisadores. uma vez que a visão é tão negativa, a juventude pode se acomodar a essa realidade crítica e desistir de lutar por um mundo melhor e uma imagem mais positiva.

Já com relação à escola, outra surpresa.
A maioria disse que a educação é boa na cidade e que as condições das escolas também.
Essas opiniões seguem na contra-mão do que vem sendo mostrado na imprensa nos últimos meses.
Pais reclamando de maus-tratos aos filhos, professores desesperados com a violência dos alunos, agressões em vários colegios das redes públicas e privadas.

Um exemplo mais recente foi o protesto feito por moradores do bairro Dom Bosco que se consideram prejudicados pelo fechamento da Escola Dom Orione.
Os alunos contaram que a estrutura era precária e o ensino prejudicado.

Os professores também foram elogiados na pesquisa.
Quanto a de quem é a responsabilidade de educar as crianças e os adolescentes, foi quase unânime a opinião de que os pais devem assumir essa tarefa e não a escola.
Isso também foi uma surpresa.
Em geral, muitos pais jogam a responsabilidade nas costas dos educadores.
Tomara que o resultado seja um exemplo de mudança de hábitos.

Foi bom ter ido à coletiva, para encontrar os colegas da imprensa.
O Carlos Mendonça estava sumido, mas marcou presença todo sorridente.
Somos fãs dele. Mas, eu só não sei o que ele e o Robson tanto fofocam e riem toda vez que se encontram.
E hoje, ainda se juntaram ao Fernando Priamo.
Eles não paravam de contar casos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Crack a droga da morte

Por Robson Rocha

Na semana passada, foi exibida no Jornal da Alterosa uma série sobre o crack.
As três reportagens da série foram exibidas há duas semanas pela TV Alterosa Juiz de Fora.
Tudo começou quando estávamos gravando uma matéria em um bairro da cidade, onde os moradores reclamavam dos entulhos jogados em um terreno.

Enquanto a Michele conversava com os moradores, fui gravar as imagens.
No terreno, havia resto de construções, lixo, pedaços de móveis. Quando estava registrando as primeiras imagens, vi algo se movimentando no meio do entulho, atrás de um ponto de ônibus.
Aproximei-me e vi um homem com uma lata de cerveja na mão e colocando cinzas de cigarro sobre ela.

Quando ele me viu com a câmera, se assustou e mandou que eu fosse embora.
Parei e insisti perguntando o que ele estava fazendo.
Ele me xingou e novamente mandou que eu saísse, pois ele não queria ser gravado.
Disse a ele que só queria saber por que ele estava colocando cinzas de cigarro, se ele ia fumar crack.
E disse que não mostraria o rosto dele.

O homem se alterou novamente.
Nisso, algumas crianças se aproximaram e eu disse para elas saírem.
Aí, ele disse que poderia me mostrar como fazia para fumar a “pedra”.
Mas, não queria aparecer.
Coloquei a câmera no ombro e ele disse que assim não.

O jeito foi pendurar a câmera pela alça.
Quando ele começou a me explicar, eu comecei a gravar, mas não tinha como ajustar o equipamento.
Isso, porque quando eu colocava a mão na lente ele me mandava tirar a mão da câmera.
Como não queria perder o flagrante e precisava direcionar o microfone da câmera na direção do homem, eu ia ajeitando o enquadramento com o quadril.

Mesmo assim, a câmera não podia ficar muito tempo apontada para ele, pois reclamava.
Mas, ele explicou que como não tinha cachimbo, usava uma latinha de cerveja.
Ele disse que primeiro tinha que fazer vários furinhos na lata e as cinzas eram para que as pedras de crack não caíssem dentro da latinha.
Depois que as pedras estavam colocadas, com um isqueiro ele ia esquentando o crack.

Depois do primeiro trago, ele começou a se alterar.
Começou a ficar trêmulo e a falar mais.
Perguntei por que se escondia no meio do lixo para fumar e ele disse que precisava da droga.
Eu me assustei quando perguntei a idade dele e ouvi que tinha trinta e dois anos.
Isso, porque ele aparentava ter pelo menos uns 50 anos.

Ele me pediu que saísse, pois já tinha falado demais.
Respeitei a vontade dele e fui gravar as entrevistas com os moradores que estavam esperando com a Michele.
Depois de gravada a entrevista, passei a situação para a Michele, pois as imagens, apesar dos enquadramentos ruins, eram um flagrante.

A Michele improvisou um texto para gravar uma passagem para uma possível matéria.
Como poderia render um bom material, optamos por usar o microfone de lapela.
Gravamos discretamente para não assustá-lo.
Voltei até o homem e perguntei se ele gravava uma entrevista com a gente e que não iríamos identificá-lo.
Perguntei se a Michele podia conversar com ele e a resposta foi positiva.

Mantivemos o microfone de lapela na Michele para gravar ao invés de usar o microfone de punho, que poderia intimidá-lo.
Quando a Michele se aproximou, ele ficou muito nervoso.
Voltei e conversei um pouco sem a câmera e o homem se acalmou.
Depois pediu um tempo.

Eu, por alguns instantes, parei no tempo observando aquela cena humilhante.
Um homem de 32 anos, fisicamente velho, bem arrumado e no meio do lixo.
Uma ânsia por dar os tragos na lata.
Ele tremia, parecia não ter controle sobre os músculos.
Por várias vezes, deixou o isqueiro cair e ficou nervoso por não conseguir encontrá-lo.
Como ele não achava, eu pegava o isqueiro e entregava, ele o pegava da minha mão como se fosse um faminto pegando um pedaço de carne.

A boca do jovem estava toda ressecada pelo uso da droga e cortada pela lata.
Mas, ele parecia não sentir nada.
Em vinte anos de profissão, poucas vezes me senti tão mal.
Mas, estava ali a trabalho e não tinha a intenção de denegrir o que restava daquele ser humano no meio do lixo.
Mas, achei importante mostrar a que ponto a droga leva um homem.

Ele acabou de fumar, revirou o chão procurando mais pedras e eu disse que não havia mais.
Perguntei se agora ele conversaria com a Michele e concordou.
A Michele se aproximou e dessa vez ele pediu para esperar um pouco.
Ele me pediu para ajudá-lo a se levantar, pois não conseguia sozinho. Ele sentou no ponto de ônibus e pediu que esperássemos mais um pouco.
Era o tempo para o efeito da droga passar.

Quando ele melhorou, pediu que a câmera ficasse direcionada para a Michele.
O homem tentou explicar que tinha profissão, mas não conseguia falar e pediu papel e caneta.
Com as mãos tremulas, colocou no papel que já foi chapa de caminhão, operador de máquina entre outras coisas.
Disse que tem duas casas alugadas e tem medo de vendê-las para manter o vicio.

O dependente químico disse que o mais triste é quando o filho dele pergunta por que o pai não pára de fumar o crack e ele não tem resposta, pois não consegue abandonar o vicio.
O rapaz afirmou à Michele que já esteve internado por dois anos e, quando saiu, voltou a usar a droga um mês depois de deixar a clínica.
A Michele perguntou o por quê.
E, ele disse que foi graças aos “amigos”.
Explicou que ninguém colocou a droga em sua boca, mas o induziram a voltar ao vicio.

A Michele perguntou se ele não tinha medo de morrer e o homem foi categórico em dizer que não tem medo de nada.
Falou que ele sabia que a mãe e o filho dele iam sofrer, mas que a morte seria um descanso.
Pois, segundo ele, é soropositivo e não consegue deixar o crack.
Explicou que separou da mulher quando descobriu que tinha Aids, para não contaminá-la com o vírus.

O depoimento dele olhando nos nossos olhos assustava, pois ele estava falando a verdade.

Em determinado momento, ele disse à Michele que naquele momento ele poderia dizer qualquer coisa, mas que depois ele não ia fazer.
Isso mostra que ele tem consciência do mal que está fazendo a si mesmo, mas a droga o domina totalmente.
Ele tinha acabado de fumar e estava momentaneamente saciado, mas quando a vontade viesse ele ia usar a droga de novo.

A Michele perguntou se era fácil comprar o crack e o homem afirmou que é muito fácil.
Que existe a droga em todos os bairros da cidade, basta procurar.
Ele conversou conosco durante um longo tempo.
A demora foi mais pela dificuldade em se expressar, provavelmente pelos anos em que o organismo dele é prejudicado pelo uso da droga.

No final perguntamos se ele aceitaria um tratamento para deixar a droga.
Ele disse que aceitaria, mas não naquele dia.
Isso, porque ele ainda tinha algumas coisas para fazer.
Pegamos o endereço dele para passar a alguma clinica que se interesse em ajudá-lo.
Nisso, parou um ônibus e ele se foi.

A partir daí, fomos procurar todas as informações possíveis sobre o crack.
Descobrimos que o crack surgiu nos Estados Unidos na década de 1980 como um subproduto da cocaína e se popularizou entre as camadas mais pobres.
O crack gera uma dependência difícil de ser abandonada.
Ele é absorvido rápido pelo cérebro e causa prejuízos às células nervosas.
O consumo entre crianças e adolescentes é cada vez maior.
Hoje, ele é consumido em larga escala e vicia mais rápido que qualquer outra droga.

Gravamos com o diretor geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Correa, que disse que o crack se tornou um problema social.
Luiz Fernando disse que antes o Brasil importava a cocaína refinada, pronta para o uso.
Mas, acrescentou que hoje entra no País a pasta básica e que o crack é produzido no Brasil.
Além disso, nosso país é um importante pólo petroquímico mundial, onde os produtos necessários para o refino do crack podem ser encontrados sem dificuldade.
Ao contrário dos países em que a produção tradicional está prejudicada pelas ações internacionais de combate ao tráfico.

A Carla Detoni, nossa produtora, deu a idéia de fazermos uma série ao invés de uma matéria especial e partimos para a produção de entrevistas.
Além de buscar outros casos.
Um desses casos foi o de uma mãe que não sabe mais o que fazer com o filho, que segundo ela, desde os 11 anos, devido ao vicio do crack está roubando e está violento.
Mas, que as autoridades não tomam nenhuma atitude com relação ao garoto e que ela teme que ele morra antes que alguma coisa seja feita.

Procuramos o pessoal do GTO Tóxicos, Grupo Tático Operacional de Tóxicos, da Polícia Civil de Juiz de Fora.
Lá, nos passaram todos os dados sobre drogas na região e nos indicaram especialistas para explicar como a droga age no organismo.
O delegado do GTO, Fernando Camarota, explicou como a droga prejudica, além do viciado, a família e a sociedade.
Isso porque o efeito da droga é rápido e o viciado passa a roubar para comprar o crack.

O médico do IML, Agner Moreira, nos disse que o crack é a droga que vicia mais rápido e que causa uma dependência física violenta.
Pois ela substitui a dopamina, uma substância importante que atua nas ligações entre os neurônios.
Além disso, ela causa um efeito parecido com a Doença de Parkinson, pois o viciado se torna trêmulo.
Sem se esquecer de que, com o tempo, ela mata os neurônios e pode levar o viciado à morte.

Uma pesquisa das Universidades de Brasília e Federal do Rio de Janeiro mostrou que 54% das condenações no Rio e no Distrito Federal foram aplicadas por quantidades de droga inferiores a 100g.
Por isso, procuramos o delegado Rodrigo Rolli, que estava no plantão, e ele nos explicou que nas apreensões maiores é difícil provar que a droga pertence a um suspeito, pois na maioria das vezes, o entorpecente é encontrado escondido e não em poder do detido.

E, esse foi o caso que encontramos nesse mesmo dia na delegacia de plantão.
1841 pedras de crack e uma garrucha foram apreendidas e um adolescente de 17 anos detido.
Mas, a droga não estava com ele e sim escondida em um terreno.
Além disso, não havia testemunhas.
Nesse caso, como ele negou que era dono do entorpecente, não havia como provar nada.

Isso nos leva a outro dado importante.
Crianças e adolescentes aparecem cada vez mais nas estatísticas como consumidores e mão-de-obra para o tráfico.
E se tornou uma cena comum, esses jovens serem apreendidos em operações policiais de combate ao tráfico.

Para o Gestor de Saúde Mental da Secretaria de Saúde de Juiz de Fora, José Eduardo Amorim, esse envolvimento de crianças e adolescentes com as drogas é muito perigoso.
Segundo ele, a infância é um período em que nossas “janelas do conhecimento” estão abertas para o aprendizado que vai ficar registrado para o resto da vida.
E, quanto mais cedo o vicio começa, mais difícil conseguir abandonar as drogas.
Principalmente o crack, que vicia rapidamente.

Para José Eduardo, esse não é um problema só de segurança publica e sim uma questão educacional.
Ele afirma que esse setor tem que se adaptar para ajudar a afastar os jovens das drogas.
Pois só a repressão não tira o jovem do vício.
E um outro problema é que, entre os dependentes que buscam ajuda nos projetos de recuperação, o vício do crack é o mais difícil de ser superado.

Hoje, o crack está presente em todas as classes sociais.
Dados do Relatório Mundial sobre drogas, divulgado pelas Nações Unidas, revelam que no Brasil as apreensões triplicaram em um ano.
Em 2006, foram apreendidas 145 toneladas da droga.
Em 2007, o total chegou a 578 toneladas.

Em Juiz de Fora, já foram apreendidos em 2009 cerca de 100 quilos de crack e mais de 10 mil pedras.
Isso, sem contar os laboratórios de produção da droga estourados na cidade pelas polícias Federal, Civil e Militar no ano passado.

Cálculos da Organização Mundial da Saúde apontam que, numa cidade como Juiz de Fora, com cerca de 600 mil habitantes, 20% da população consomem ou vão consumir algum tipo de droga.
E o pior, segundo a OMS, é que apenas 15% dessas pessoas abandonam as drogas.
Projetando isso para Juiz de Fora, quer dizer que 120 mil juizforanos, em algum período da vida, vão consumir alguma droga ilícita e que cerca de 100 mil pessoas não abandonarão as drogas.

Por fim, depois de todos os dados levantados e entrevistas gravadas, partimos para montar o enorme quebra-cabeças.
Para conseguir fechar todo esse trabalho, a colaboração da galera do GTO durante a produção dos materiais foi fundamental.
E, também do José Eduardo Amorim, que nos orientou em relação ao vicio.

Mas, o que fica pra gente no final é que esse problema ainda vai atingir milhares de famílias e que muitos jovens ainda vão morrer e matar em função dessa droga que veio pra ficar.

A série de matérias pode ser vista na coluna ao lado.