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JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS, Brazil
Esperamos com este Blog dividir um pouco das inúmeras histórias que acumulamos na nossa profissão. São relatos engraçados, tristes, surpreendentes...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Coragem na luta contra o crack

Por Michele Pacheco

No último ano, fizemos uma grande quantidade de matérias sobre o consumo sem controle do crack e o quanto essa droga desestrutura as relações familiares.
Em geral, somos procurados por pais e amigos de dependentes que já não sabem o que fazer para afastar as pessoas queridas do vício.
Os depoimentos são chocantes e emocionantes.
Tem gente que apela e passa a amarrar, acorrentar e trancafiar o dependente em casa, para evitar que ele pratique crimes para conseguir dinheiro e comprar mais droga.
(Texto 626 - Crack a droga da morte)

Numa série de reportagens que fizemos em 2009, aprendemos muito sobre o efeito nocivo do crack no organismo.
Basta usar duas vezes para que a pessoa se vicie.
O efeito dura em média cinco minutos.
Isso, porque o crack tem substâncias que agem diretamente nas células nervosas, ocupando parte da estrutura celular e agindo no cérebro.

Sabendo de tudo isso, fica mais fácil entender porque os dependentes são tão resistentes em abandonar o vício.
Por ser uma dependência química, ela é mais difícil de ser abandonada e exige um tratamento rigoroso e muita força de vontade.
Como a que teve um jovem de 19 anos que procurou a mim e ao Robson na TV Alterosa na semana passada.
Eu estava gravando uma entrevista e pediram que ele me aguardasse uns minutos.

Quando comecei a conversar com ele, notei que o jovem estava com as mãos muito frias, suava muito e parecia nervoso.
Ele me contou indignado que estava tentando ajuda para se internar numa clínica, mas não estava conseguindo.
Foi duas vezes a médicos do SUS e eles o encaminharam ao CAPS Álcool e Drogas.
Esse é o procedimento correto, mas não servia para ele.
"Eu sei que não vou me recuperar se ficar na rua, eu já tentei e não resisto ao crack" repetia o rapaz o tempo todo.

Não era neurose ou histeria, não.
Ele tinha motivos de sobra para ter essa certeza.
Desde que a mãe morreu, há 5 anos, ele passou a viver na rua, sem qualquer condição de se sentir um cidadão, e conheceu o crack.
A droga se tornou uma companheira inseparável.
Nos últimos meses, ele dormia nos fundos da Catedral Metropolitana, passando despercebido a fiéis e pedestres que andavam pela rua Santo Antônio.

O desespero do vício o levou a praticar pequenos furtos em lojas e mercados.
Ele roubava qualquer coisa para trocar por droga.
Para ajudar o rapaz, acabei de conversar com ele e liguei para o vereador Noraldino Júnior, presidente da Comissão Parlamentar de Combate e Prevenção às Drogas, da Câmara Municipal de Juiz de Fora.
Ele explicou que estava numa audiência complicada e pediu que fossemos com o rapaz até a Câmara na manhã seguinte.

Assim que ouviu a história, o vereador acionou uma rede de voluntários que se prontificou a ajudar.
Em poucos minutos, o Danilo, ex-jogador de futebol que faz um trabalho social com jovens, conseguiu uma vaga numa clínica longe de Juiz de Fora.
O problema era que o jovem não tinha dinheiro para pagar o tratamento e a internação, com custo de um salário mínimo por mês.
O obstáculo foi removido pelo presidente da Comissão, que assumiu os gastos.

Quando tudo parecia resolvido, veio mais uma surpresa.
O jovem precisava de documentos para viajar e só tinha uma certidão de nascimento velha e toda rasgada.
A equipe que decidiu ajudá-lo providenciou a papelada para retirar a carteira de identidade.
Ao ter que preencher os documentos, o rapaz revelou envergonhado que não sabia ler nem escrever.
Com ajuda do irmão, ele preencheu os papéis e foi embora, ansioso pelo dia seguinte, quando daria um passo importante rumo a um futuro melhor.

Falando no irmão, é importante contar que o rapaz tem um irmão mais velho do que ele e uma irmã de 17 anos.
Ele mantinha pouco contato com os dois, porque evitava ir às casas deles.
O motivo era a fissura que tinha quando não estava drogado e que o levava a roubar qualquer coisa que estivesse à mão para vender.
Achei incrível que, mesmo sob o domínio da droga, ele tenha conseguido manter uma dose de lucidez e o desejo de preservar quem ele ama.
Ao saber que o jovem estava disposto a largar a droga, o irmão dele deu apoio e levou o rapaz para dormir na casa dele até a hora do embarque.

No dia da partida, encontramos o rapaz com um sorriso enorme e os olhos brilhando.
Ele estava havia quase 48 horas sem crack, um recorde nesses cinco anos de vício.
Os efeitos eram evidentes nas mãos geladas e na ansiedade.
Mesmo assim, ele deu um exemplo de coragem contra o crack e seguiu em frente na determinação de mudar de vida.
Hoje, recebemos notícias de que o jovem está bem, passou por uma série de exames médicos e já começou o tratamento de desintoxicação.
Agora, é esperar os seis meses de internação acabarem para lutar por um curso profissionalizante e um emprego para ele.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Acidente grave na BR 267 em Juiz de Fora

Por Michele Pacheco

Vendo a situação do carro, foi difícil acreditar que alguém saiu vivo dele.
Era por volta de nove da noite dessa quarta-feira, quando João de Oliveira, de 63 anos, voltava para casa, na zona norte de Juiz de Fora com a mulher.
Ele perdeu o controle da direção da Caravan numa curva perigosa e o veículo subiu no barranco que fica na margem da rodovia, sentido Lima Duarte-Juiz de Fora.

A violência da batida foi tão grande que o guard rail, proteção metálica na beira da pista, foi arrancado do suporte.
O metal virou uma espécie de lança, invadiu o carro pela frente, deslocou o motor do lugar, empurrou a barra de direção para o colo do motorista e saiu destruindo tudo na traseira do carro.
A barra passou bem no meio dos bancos.

No caminho, o ferro decepou a perna do motorista.
Segundo os policiais rodoviários federais, quando eles chegaram ao local o sangue esguichava da perna do comerciante, dono de um açougue no bairro Santa Cruz.
Os bombeiros prestaram socorro, pararam o sangramento e levaram a vítima para o hospital de Pronto Socorro de Juiz de Fora.

A informação passada pelo hospital no início da tarde foi de que o comerciante passou por cirurgia e estava na sala de urgência, respirando com ajuda de aparelhos.
O estado dele exige atenção.
Parece um milagre, mas a mulher do João, a Maria Aparecida de Sá, de 44 anos, estava no banco do carona e saiu ilesa.
Ela teve apenas arranhões, foi atendida no HPS e liberada.
O banco do passageiro era a única coisa inteira no carro.

Um vizinho do casal foi até o local para ver o estrago e comentou que o comerciante costuma dirigir depois de beber.
E esse não foi o primeiro acidente dele com a Caravan.
"Há pouco tempo, ele atropelou sete vacas de uma vez só.
Fez acordo com o dono e levou o carro para arrumar.
Tinha uma vaca morta em cima do teto do carro.
Ele bebe muito e não liga de sair dirigindo.
Todo mundo já falou para ele ter mais cuidado" contou o homem, lamentando o acidente.

A Polícia Rodoviária Federal encontrou indícios de que o motorista estava acima do limite de velocidade.
Na maioria dos trechos da BR 267, o limite é de 80 km/h.
O velocímetro do carro parou marcando 100 km/h.
O Inspetor Lima Correa observou que, por ser uma curva, o simples fato do acidente ter ocorrido já é um indicativo de velocidade incompatível.
Ele disse que só a perícia pode afirmar as causas exatas do acidente.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Diversão solidária

Por Michele Pacheco

Hoje, nossa tarde começou de forma bem agradável.
A primeira pauta era sobre uma visita de alunos de escolas públicas a um parque de diversões montado em Juiz de Fora.
A idéia era mostrar a reação de crianças e adolescentes nesse passeio gratuito.
Claro que encontramos estudantes com sorriso amplo no rosto, correndo de um lado para o outro, enfrentando filas e aproveitando os brinquedos.

As crianças se encantavam com as cores e formas do carrossel e dos trenzinhos e carrinhos.
Brinquedos mais tranquilos, que não oferecem muitas emoções, mas levam a um mundo de imaginação.
Quem ouvia a música tocando e acompanhava o movimento circular dos brinquedos notava que as crianças estavam num mundo diferente, só delas, em que cada uma criava suas próprias aventuras.
Olhos brilhando e expressões encantadas estavam presentes, para não deixar dúvidas de que estavam adorando tudo aquilo.

Os adolescentes sempre têm aquele ar de coragem e desafio no rosto.
Não querem saber de brinquedos lentos e enfrentam as filas impacientes por um pouco de adrenalina.
E encontram uma boa dose na Barca, no Dancing, no Twister...
Vendo o pessoal girar e gritar sem parar, deu para ter uma noção do quanto o passeio gratuito foi especial.

A idéia de promover entrada de graça de crianças carentes e de alunos de escolas públicas vem desde a criação do Parque Trombini, em 1957.
O Antônio Luiz foi muito gentil em receber a nossa equipe e mostrou a mesma emoção de sempre ao falar sobre o projeto.
Ele é a terceira geração da família a manter o parque e o trabalho voluntário por todas as cidades onde montam os brinquedos.

A gente trabalha tanto em cima de factuais, de tragédias, de sofrimento e violência, que cobrir uma matéria dessas é um presente sempre bem recebido.
Tem gente que acha que jornalista só se sente bem se houver notícias ruins para passar.
É o contrário!
Nós queremos mostrar o lado bom das pessoas, o que elas fazem para ajudar o próximo, cada ação despretensiosa que acaba mudando a vida do outro.
Com certeza, os problemas ocupam um bom espaço nos noticiários.
Mas, boas ações também merecem destaque.
É o que ocorre no Jornal da Alterosa.

No momento em que nossas produtoras Ludmila e Flávia ficaram sabendo da visita ao parque, conversaram com nossa Editora Responsável, Elisângela, que na mesma hora pediu matéria.
Nós fomos animados para a cobertura e tentamos registrar ao máximo a emoção daquelas pessoas.
A Kelly editou com capricho e se envolveu no sentimento coletivo de que aquele assunto merecia destaque.
A matéria ficou legal e encerrou o jornal de forma positiva.

O curioso é que, enquanto buscávamos as melhores imagens, as expressões sorridentes e encantadas das crianças, encontramos um detalhe inesperado.
No meio da fila enorme para o carrinho de batida, estava a Elza.
Com os olhos brilhando de ansiedade, a auxiliar de serviços gerais, de 44 anos, se sobressaía entre as crianças pequenas.
Ela parecia mais animada do que todo o grupo de 1500 alunos de escolas públicas.

Brincamos com a Elza sobre ela voltar a ser criança e parecer mais feliz do que a garotada e tivemos uma surpresa.
Ela estava daquele jeito porque nunca tinha ido a um parque de diversões na vida.
Nascida e criada na zona rural de Divino, interior da Zona da Mata Mineira, não teve oportunidade de se divertir quando era pequena.
Quando a família mudou para Juiz de Fora, ela era adolescente e teve que trabalhar.

O convite para ir ao parque partiu da diretora da escola onde a Elza trabalha.
Foi a realização de um sonho.
A matéria, que era para falar das crianças, ganhou vida nova.
A Elza roubou a cena e foi nosso personagem de maior destaque.
Um simples bate-papo pode render ótimas histórias durante as reportagens.
Essa é uma que não vamos esquecer.
Ela dirigindo o carrinho de batida, os olhos úmidos de emoção ao sair do brinquedo e o depoimento singelo de que esse foi um dia para lembrar eternamente...
São essas as melhores imagens dessa matéria que vamos guardar na memória.

Protesto contra a dengue na zona leste de Juiz de Fora

Por Michele Pacheco

Os moradores do Vitorino Braga, zona leste de Juiz de Fora, fecharam uma das principais ruas do bairro para protestar contra a dengue.
Revoltados, eles colocaram fogo em pneus.
Alguns gritavam palavras exaltadas pedindo providências das autoridades.
Outros, conversavam com nossa equipe e explicavam que a preocupação é grande e que eles estão pedindo há um bom tempo que alguma ação seja feita numa casa da rua do Monte, onde há indícios de focos do Aedes Aegypti, mosquito transmissor da dengue.

Os policiais militares foram para o local organizar o trânsito que ficou todo confuso bem no horário de saída de escolas e do trabalho.
Os manifestantes disseram que o protesto começou às quatro da tarde, mas os policiais afirmaram que a rua ficou com o tráfego impedido de cinco e meia até seis horas.
Os bombeiros foram chamados, apagaram o fogo e removeram o resto dos pneus queimados para liberar a rua.

Os manifestantes disseram que vão esperar providências nesta quinta-feira.
Se nada for feito, eles vão juntar ainda mais pneus e fazer um protesto maior, fechando ruas estratégicas que levam a vários bairros da zona leste.
É bom lembrar que, em três dias, esse foi o segundo protesto com queima de pneus contra a dengue em bairros de Juiz de Fora.
Na segunda-feira, foi no Jardim Esperança, zona sudeste, que houve protestos com uma enorme coluna de fumaça preta se espalhando pelo bairro e pela BR 267.
Lá, a situação está melhor.
Hoje mesmo, fomos registrar a passagem dos agentes com fumacê pelas ruas e casas.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Protesto contra dengue em Juiz de Fora

Por Michele Pacheco

Hoje, nossas duas pautas foram sobre dengue.
A primeira foi uma reunião convocada pelas secretarias municipais de Saúde, Atividades Urbanas e Educação.
O objetivo foi anunciar a união de forças contra a dengue.
Servidores municipais e lideranças comunitárias lotaram o teatro do Pró-música.

As autoridades passaram dados sobre a doença, que atinge um recorde histórico na cidade.
Já são 2154 notificações e 1296 confirmações.
Segundo a secretária de Saúde, Maria Ruth, Juiz de Fora vive uma epidemia leve.
Mas, antes que a situação fuja de vez ao controle, várias estratégias vão ser usadas.

Uma delas é a punição de quem não colabora com as ações preventivas.
Donos de terrenos que tenham focos de dengue podem ser multados.
Uma discussão na reunião foi quanto aos lotes e terrenos fechados ou abandonados.
Com a dificuldade para se localizar os donos, fica difícil saber a quem enviar a multa.

Saímos da reunião e fomos avisados por um amigo da polícia militar, que está sempre bem informado, de que havia um protesto de moradores contra a dengue no Jardim Esperança, zona sudeste da cidade.
Esse policial é um exemplo de profissional que está sempre atento a tudo o que ocorre ao redor dele, em todas as companhias.
Sujeito operacional e ágil para lidar com os casos que pega.
Só não cito o nome dele aqui, para não criar problemas para ele.

Bem, voltando à informação, fomos correndo para o local.
De longe, dava para ver a coluna alta de fumaça preta, indicando o ponto onde pneus estavam em chamas.
Os moradores fizeram uma barricada na principal rua do bairro, no trevo com a BR 267, e colocaram fogo.
Acho que nem eles imaginavam que a situação fosse ficar tão complicada.
A fumaça preta se espalhou rápido e o calor era intenso.

Policiais Militares da 135a Companhia estavam à postos, de forma pacífica, acompanhando o desenrolar do protesto.
Os moradores reclamaram que há muitos casos de dengue no bairro e que não estão sendo bem atendidos no posto de saúde.
Os pacientes com sintomas da dengue têm que ir a outros postos para receber atendimento, o que piora a situação deles.
Entre os manifestantes, encontramos dezenas de casos de pessoas que estão com a família inteira doente.

Os líderes da manifestação estavam muito revoltados com o que chamaram de descaso da prefeitura com o Jardim Esperança.
Eles mostraram vários pontos onde há lixo e entulho acumulados.
Reconheceram que falta cuidado por parte de alguns vizinhos e reclamaram que o poder público demora muito para atender aos apelos por capina e limpeza.
Em meio à fumaça sufocante, eles gritavam pedindo outro tipo de fumaça, a dos carros fumacê.

Quem vê uma matéria dessas no ar, só enxerga o lado jornalístico dela, as imagens fortes dos pneus queimando, a revolta dos moradores...
Mas, esse é o tipo de trabalho que os jornalistas suam para fazer. Literalmente!
O Robson precisou ficar o tempo todo perto do fogo, flagrando os moradores alimentando as chamas, o risco das labaredas se espalharem pela vegetação próxima e de alguém se queimar em meio à confusão.

No início, a adrenalina típica das matérias factuais toma conta da gente.
Não dá tempo de pensar que vamos ficar parecendo dois pernis defumados: vermelhos e cheirando a queimado.
Aos poucos, os olhos começam a lacrimejar, a bochecha exibe uma cor estranha, mistura de vermelho do calor e preto da fuligem.
Como boa flamenguista, não tenho nada contra rubro-negro!
Mas, como repórter tenho alguns problemas.
Haja pó compacto para disfarçar as manchas.
Escova, então?
Só com muita paciência.
O vento joga o cabelo para todo lado e a fumaça gruda nele como chiclete.

Resultado: nada da elegância e do glamour que tanta gente acha que cerca a vida dos repórteres. Por dentro do blazer, a gente sua em bicas perto do fogo.
A roupa limpinha ganha um odor de fazer inveja a qualquer churrasqueiro.
E o cheiro de pneu queimando é horrível.
Parece que fica impregnado no nariz da gente por vários dias.

Outro tipo de matéria que acaba com qualquer tentativa dos repórteres parecerem apresentáveis é a de demolição.
Na semana passada, acompanhamos o trabalho de funcionários da Secretaria de Obras e da Defesa Civil.
Eles se preparavam para demolir dois prédios, um de dois e outro de quatro andares, e duas casas no bairro São Sebastião.
Os prédios já abrigaram projetos sociais e esportivos e estavam abandonados há sete anos.
As casas foram condenadas no início do ano, depois do desabamento no Reveillon que matou três pessoas na rua de baixo, no bairro Cesário Alvim.

Bem, todo mundo a postos e nós também.
O Robson escolheu os melhores ângulos e se preparou para registrar as demolições.
Eu peguei nossa máquina fotográfica e fui garantir fotos para o blog.
Mais uma vez, a adrenalina é uma armadilha.
A gente se empolga vendo o operador da escavadeira arrancando paredes e lajes e nem percebe onde se meteu.
Quando os escombros batem no chão, a nuvem de poeira engole tudo em volta.
Incluindo os jornalistas bem posicionados perto do fato.

Nem preciso dizer que foi o nosso caso.
Esperto, o Robson ficou numa posição que garantia menos poeira.
Mesmo asssim, depois de fazer as imagens, ele me olhou e notei que parecia um urso panda: todo o rosto estava amarelado de pó, exceto uma roda em torno do olho direito, que fica escondido no view finder da câmera.
Eu, empolgada com as imagens e lutando com o foco, só tinha olhos para os prédios sendo demolidos.
Uma meia hora depois, eu já não tinha olhos para mais nada.
Uso lentes de contato e elas adquiriram uma tonalidade leitosa, entre o amarelo e o marrom.
Até para piscar estava difícil, com tanta poeira agarrada nas lentes.

Ventava muito naquele dia e eu lutava para tentar manter os cabelos na cabeça.
Eles pareciam querer levantar vôo.
Agora, imagine você, com cabelos abaixo do ombro, numa dança frenética estilo Medusa, com poeira vindo de todo canto e com uma escovinha linda e portátil que cabe na palma da mão.
A pobrezinha ainda estava presa no primeiro punhado de cabelos, quando o Robson veio todo animado perguntando se eu queria gravar teaser.
Claro, por que não?
Com os cabelos quase domados (e olhe que eles são lisos!), a pele coçando de poeira e os olhos arranhando como se tivessem areia, me posicionei e gravei.

Depois, voltei para a nobre função de fotógrafa.
Notei que o Robson tinha mudado de lugar e estava no alto da rua.
Bem que tentou me avisar, disse que era melhor tirar foto lá de cima, mas...
Na hora, pensei que ele iria perder o melhor ângulo e não arredei o pé de onde estava.
Máquina ligada, dedo no gatilho, pronta para disparar e registrar o prédio maior caindo.
A escavadeira foi levada para perto das pilatras e foi quebrando com cuidado uma a uma.

Depois de uns dez minutos, um estrondo indicou que a laje do quarto andar tinha ido parar no terceiro.
Aí, entendi a mudança do Robson.
O deslocamento de ar jogou uma nuvem densa de poeira em cima de mim.
Quando parei de tossir e espirrar, notei que nossa pobre maquininha parecia ter saído de alguma escavação arqueológica.
E como uma relíquia recém desenterrada!

Depois do material gravado, voltamos para a TV.
Eu, com os cabelos meio ruivos, meio loiros de pó, com o blazer todo desenhado pela poeira e chorando sem querer por conta das lentes arenosas.
Mas, no ar o resultado valeu a pena.