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Esperamos com este Blog dividir um pouco das inúmeras histórias que acumulamos na nossa profissão. São relatos engraçados, tristes, surpreendentes...

domingo, 15 de novembro de 2009

Miss Brasil Gay 2009 - do glamour à agressão

Por Michele Pacheco

A última imagem que muitas pessoas vão guardar do Miss Brasil Gay 2009 é a da agressão sofrida pela candidata vencedora.
Ava Simões, transformista que defendeu o estado do Espírito Santo, estava gravando entrevista com a nossa equipe, quando a Miss São Paulo voltou à passarela enfurecida e arrancou a peruca da Miss eleita com coroa e tudo.
Foi tudo muito rápido, nem o pessoal da organização percebeu.
Felizmente a Miss não se feriu.
Mas, foi uma cena triste de ver.

Houve o maior tumulto.
Algumas pessoas que acompanhavam a Ava se revoltaram e arrancaram a peruca da Miss São Paulo.
Houve troca de socos e pontapés e o clima ficou pesado.
Os seguranças correram, os organizadores também.
A Miss Brasil Gay 2009 foi levada para um canto do palco, para se recompor.
Enquanto isso, defensores das duas candidatas batiam boca para saber quem tinha razão.

É triste pensar no trabalho que tantas pessoas tiveram para organizar o evento.
O Miss Brasil Gay estava previsto para agosto, mas foi adiado em função das recomendações preventivas da gripe A.
Com quase três meses de atraso, parecia que tudo estava perfeito.
Até o final lastimável.
Um desrespeito com o público e com toda a equipe de organização que trabalhou tanto.
Todo concurso tem o risco de alguém se considerar injustiçado.
Mas, isso não justifica a violência!

O Miss Brasil Gay é o maior evento de transformismo do país.
Vinte e sete transformistas participaram, defendendo estados da Nação.
A festa deste ano foi no ginásio do Sport Club, onde tradicionalmente era feita desde a criação, há 33 anos.
No ano passado, os organizadores tentaram mudar e levaram o Miss Gay para o Cine Teatro Central.
Não funcionou tão bem e, atendendo a pedidos, o evento voltou ao ponto de origem.

É um grande espetáculo, que mobiliza toda a comunidade GLBT do país e também a mídia.
O público acompanha, logo no início, a galeria da beleza.
Travestis, transsexuais e Drag queens de todo o Brasil capricham nos trajes elegantes ou irreverantes para fazer bonito no tapete vermelho do Miss Brasil Gay.
É um desfile de charme e beleza.
Todo ano, ouço comentários do tipo "nossa, nem parecem homens!".
Com certeza, os convidados estão entre os profissionais que mais se destacam em shows gays.

Depois da galeria da beleza, os apresentadores chamam os jurados.
Eles desfilam um a um pela passarela e tomam os lugares reservados, bem ao pé da passarela. De lá, têm visão privilegiada de todo o espetáculo.
A tarefa é difícil: eleger o transformista mais bonito do Brasil.
A dificuldade do concurso é uma atração a mais e alimenta os sonhos de muitos gays pelo país a fora.

O evento é inspirado nos concursos de Miss Brasil, que fizeram tanto sucesso nas décadas de 70 e 80.
As candidatas se apresentam primeiro com trajes típicos.
Elas escolhem alguma característica marcante do estado que estão defendendo e traduzem isso para o pano e as alegorias.
Neste ano, a criatividade estava à solta.
Foi difícil escolher a apresentação mais bonita.

Entre os que me chamaram mais atenção, estava o transformista que representou Minas Gerais.
Uma caixa foi colocada no palco.
As luzes se apagaram e, de dentro dela, saiu a candidata mineira.
Ela estava com um traje prateado, lembrando um robô.
Inúmeros leds deram um efeito especial à roupa.
No escuro, ela brilhava e seguiu pela passarela na performance lembrando um robô e homenageando o Vale do Aço, que exporta diversos produtos.

A Miss São Paulo também abusou da imaginação.
Um enorme cofre foi colocado no palco.
A música foi rolando, enquanto a porta era destravada por dentro.
Quando o cofre abriu, a candidata estava sentada em meio ao dourado de moedas e riquezas.
Foi a forma encontrada para lembrar da Bolsa de Valores do maior centro financeiro da América Latina.

Um flor gigantesca no meio da passarela anunciou o início do desfile da Miss Santa Catarina.
Aos poucos, as pétalas se abriram e revelaram outra flor.
Por fim, a candidata saiu de dentro dela e começou a apresentação performática que ganhou muitos aplausos do público.
Antes do desfile, a Carol Zwick contou que vinha se preparando desde junho e que gastou em torno de 22 mil reais na confecção dos trajes.

A Miss Espírito Santo apelou para uma tentação.
Ela veio dentro de uma lata grande, com várias imagens de bombons da Garoto.
A estrutura rodou e ela estava sentada num banco em meio a tubos de cobre, lembrando a fábrica de chocolate.
Aliás, o cheiro da guloseima se espalhou no ar, junto com centenas de bombons jogados para o público.

No desfile de trajes de gala, a maioria das candidatas optou por tecidos transparentes e muitos bordados.
Achei até que ficou meio repetido.
Modelos justos muito bordados e muito coloridos.
Todos maravilhosos, claro, mas alguns eram parecidos.
Poucos transformistas apostaram em modelos mais volumosos.
Mas, não resta dúvida de que foi um banho de glamour na passarela.

Entre os desfiles, o público conferiu diversos shows.
Foram muito bem escolhidos, diga-se de passagem.
A irreverência da Kayka é sempre bem recebida.
As apresentações sensuais aumentaram em alguns graus a temperatura na ginásio.
Os transformistas parecem cada vez mais inspirados para se apresentar no Miss Brasil Gay.
É como um Oscar no mundo gay.

A juizforana Xuxu, que se destacou na internet com um dos clipes mais acessados e está prestes a gravar um DVD ao vivo, foi um dos destaques.
A performance lembrou o vídeo gravado no centro de Juiz de Fora que fez sucesso na internet. Misturando irreverência e sensualidade, Xuxu ganhou o carinho do público.

Fiquei pessoalmente encantada com os shows do Léo Áquila.
Performático e elástico, o artista se desdobrou, literalmente, na passarela.
O público ficou sem fôlego e nem queria piscar para não perder nada.
Haja fôlego!
Léo Áquila correu, pulou, dançou e revirou a cabeça até a gente se perguntar em que momento ela sairia voando pelo ginásio.
Muito bom!

A atração internacional anunciada foi a Georgia Brown.
Nascida na Itália e criada no Brasil, ela faz muito sucesso nos Estados Unidos e é considerada a "Diva da House Music".
A cantora é reconhecida pelo Guiness Book como detentora da voz mais aguda do mundo.
E ela usa e abusa desse timbre nos shows.
De cabelos vermelhos e vestido preto, ela não parou um minuto na passarela.

Difícil mesmo é trabalhar no Miss Brasil Gay.
Todos são muito solícitos na organização.
Mas, o espaço é pequeno e sobra apenas uma faixa estreita nos fundos do ginásio para os cinegrafistas.
O Robson se ajeitou em cima de uma caixa do equipamento de som.
As assessoras de imprensa e produtoras acharam alguns bancos e improvisaram praticáveis.
Podemos dizer que a imprensa ficou imprensada lá no fundo.
Mas, tudo acabou bem e todo mundo trabalhou sem perturbar o público.

Passava das quatro da manhã, quando o resultado foi anunciado.
Os apresentadores Fernanda Müller e Paulo Nahan fizeram o suspense tradicional, antes de anunciar que a Miss São Paulo, Taysa Shinayder, ficou com o terceiro lugar.
A Miss Santa Catarina, Carol Zwick, ficou com o segundo lugar.
E a Miss Espírito Santo foi a eleita.
Ava Simões vinha há quatro anos disputando o concurso e sonhando com o título.
Ela gastou em torno de 50 mil reais com as roupas e plásticas.
Mas, valeu a pena.
Ela ficou ainda com os títulos de Melhor Traje Típico, Melhor Traje de Gala e Miss Brasil Gay eleita pelo júri popular.

Ava Simões nasceu em Recreio, Minas Gerais, e mora no Rio de Janeiro.
É comum no Miss Brasil Gay que candidatas de outros estados representem as unidades que não elegeram Misses Gays estaduais.
Apesar do susto dado pela Miss São Paulo, a vencedora deste ano mostrou jogo de cintura.
Assim que o tumulto diminuiu, ela recompos o visual e voltou para terminar a entrevista que estava dando antes do ataque.
Sorriu, mostrou confiança e disse que com ou sem peruca, ela é a Miss Brasil Gay e vai ser uma Miss diferente.
Não quer pensar apenas na aparência, quer fazer algo mais, quer ajudar as pessoas.
Boa sorte!

2 comentários:

cassio disse...

nao era dela

Marcus Martins disse...

Imagens privilegiadas de Robson. Parabéns! É lógico que tem o fator estar no lugar certo na hora certa, mas conta muito o feeling jornalístico para não perder o fato. Achei o máximo ver a nossa bandeira (já que ainda me sinto um alteroso) na imagem. Foi no momento em que a michele estava perguntando. O fato é triste e estraga o brilho do evento, mas parabéns a vocês pela reportagem.